PRESENTEÍSMO NA EMPRESA
Tal como ocorre no corpo humano,
em uma empresa todos os órgãos e membros precisam funcionar adequadamente para
que se alcancem os melhores resultados – a saúde do corpo ou, nesse caso, da
organização. Quando um deles apresenta uma disfunção, todo o organismo sofre e
tem de despender mais energia para suprir aquela deficiência. Algo semelhante
acontece nas empresas quando ocorre o chamado presenteísmo. Ao contrário do
absenteísmo – quando o empregado simplesmente não vai trabalhar –, no presenteísmo
a pessoa comparece ao trabalho, mas não consegue produzir como deveria ou de
acordo com o que se espera dela. Nesse caso, os gestores enfrentam uma dupla
dificuldade: a primeira é identificar o problema – que não é tão visível como
nos casos de absenteísmo; a segunda é mensurar os prejuízos em termos de
produtividade. Por essas razões, o presenteísmo já está sendo considerado,
especialmente nos Estados Unidos, um inimigo oculto da produtividade.
O presenteísmo pode ser entendido
como uma doença organizacional. Como ocorre em outras disfunções relacionadas
ao trabalho em equipe, ele não pode ser analisado isoladamente. Na prática, o
presenteísmo é decorrente de uma série de fatores que interferem na
produtividade do empregado: o clima organizacional ruim, a falta de motivação
para o trabalho e problemas de saúde – físicos ou psicológicos. Por isso, é muito
mais complexo identificar o empregado “presenteísta” do que reconhecer o
absenteísta ou, até mesmo, o workaholic – pessoa cuja vida pode, em casos mais
graves, reduzir-se ao trabalho. Aliás, o workaholic pode ser um tipo de
“presenteísta”, já que nem sempre sua produtividade e eficiência correspondem
ao elevado número de horas trabalhadas.
O presenteísmo começou a ser
estudado na França, na década de 50, e voltou à tona mais recentemente, quando
as companhias perceberam que a próxima barreira da competitividade está nas
mãos dos colaboradores. “As empresas já melhoraram os processos, a tecnologia e
os modelos de negócios. No Brasil, o fenômeno ainda é pouco discutido e são
raros os departamentos de recursos humanos que vêem nele uma ameaça à
produtividade – e, em última instância, aos lucros. Trata-se de um conceito
muito refinado para o Brasil. Muitas empresas sequer oferecem condições básicas
para o bem-estar no trabalho.
Na verdade, a maioria das
companhias não percebeu que, além de ser mais custoso do que o absenteísmo, o
presenteísmo pode afastar talentos e levar os executivos a um burnout – um
estado de exaustão prolongada.
Espante os fantasmas
Algumas medidas que a empresa
pode adotar para evitar que o presenteísmo se instale na organização:
- Assegurar a correta divulgação dos fundamentos da
empresa e debater esses indicadores com analistas e investidores
- Fazer uma triagem no momento da contratação do
funcionário para detectar problemas crônicos, mesmo se pequenos
- Investir na saúde dos colaboradores, inclusive com
terapia para combater a depressão e tratamento de dores e doenças crônicas
- Educar os colaboradores para que procurem um médico
e fiquem em casa quando estão com problemas de saúde
- Implantar programas de apoio psicológico, emocional
e de serviços, inclusive aos familiares, para reduzir as preocupações do
trabalhador com assuntos extra-trabalho
Para os especialistas em RH e
gestores de empresas, o problema está em saber como combater o presenteísmo,
evitando que ele se reflita nos indicadores de produtividade. “O primeiro passo
é entender as razões, as causas do problema”, aponta Brett Gorovsky, da
consultoria norte-americana CCH. Enquanto nos Estados Unidos a principal causa
está relacionada ao fato de as pessoas terem excesso de trabalho (veja o quadro
“As razões dos norte-americanos”), no Brasil, o medo de perder o emprego ainda
é fator determinante. “Quando as pessoas estão inseguras, procuram marcar
presença, trabalham além do expediente ou não tiram férias. Fazem isso por medo
de ser demitidas. Ao mesmo tempo, esse temor as desmotiva nas suas atividades”,
explica Heloani, da FGV. Isso acontece principalmente nas organizações que têm
políticas de recursos humanos – critérios de admissão e demissão, por exemplo –
pouco transparentes. Se uma pessoa foi demitida, é preciso que os motivos
fiquem claros para todos os colaboradores.
Com dor e com sono - Principais causas de presenteísmo
por problemas de saúde que reduzem o rendimento do trabalhador brasileiro
Dores musculares: 86%
Problemas de sono: 35%
Dores gastrintestinais: 26%
Fonte: Estudo ISMA-BR –
International Stress Management Association – Brasil)
O medo ou a insegurança estão
intimamente ligados a alguns dos principais tipos de presenteísmo. Um deles é o
de clima organizacional, que resulta, quase sempre, da desmotivação ou da
preocupação dos empregados com o próprio futuro no trabalho, especialmente nos
períodos de dificuldade da empresa. O temor de que os líderes pensem que estão
fazendo “corpo mole” leva muitas pessoas a comparecer ao trabalho mesmo com
complicações de saúde, o que diminui sua eficiência. Por fim, é bastante comum
que o cidadão bata o ponto, mas não consiga se manter focado em suas atividades
porque está preocupado com problemas familiares – do filho doente ao aumento da
mensalidade escolar. É sempre complicado identificar e lidar com essas
situações porque os responsáveis não têm como adivinhar o que está acontecendo
com o trabalhador ou com sua família. Pior: quando a empresa não está
familiarizada com o conceito de presenteísmo, o resultado insatisfatório do
trabalho pode provocar uma demissão equivocada ou o desperdício de um talento.
Presente, mas desmotivado
A falta de motivação relacionada ao clima
organizacional é outra causa do presenteísmo. O professor Heloani, da FGV, cita
o exemplo do choque do avião da Gol com o jato Legacy, em 2006, que resultou
num dos maiores desastres da aviação brasileira. Segundo ele, a crise dos controladores
que se seguiu ao acidente evidenciou vários sintomas de presenteísmo. Jornadas
de trabalho extenuantes, falta de estrutura de apoio, ausência de clareza nos
critérios de admissão e demissão, medo de punições e outros problemas faziam
parte do dia-a-dia dos controladores, que trabalhavam desmotivados e sob
pressão. Era o ambiente organizacional propício a uma crise de graves
proporções.
Para evitar que dificuldades no
ambiente de trabalho se transformem em causas de presenteísmo, deve-se fazer
pesquisas de ambiente corporativo por área. Os resultados são discutidos no
próprio setor e, depois, são apresentados e debatidos com todo o corpo
funcional da companhia em uma reunião.
Escutando as sugestões e partindo
para a ação. As pessoas passam a confiar no trabalho porque cria-se um ambiente
de companheirismo e de respeito. Para melhorar o clima no trabalho, a empresa
também pode possuir programas de controle do colesterol, de combate ao
tabagismo e de ginástica laboral. As metas de produção são definidas em
conjunto, pelo líder e pelos empregados de cada área, o que as torna mais
realistas.
As empresas e os colaboradores
precisam enxergar o presenteísmo como um problema organizacional. Se uma pessoa
adoece, significa que toda a organização está um pouco doente.
A desmotivação com o ambiente de
trabalho pode ter diversas causas. Um funcionário que não vê perspectivas de
crescimento na empresa, trabalha sob intensa pressão por resultados ou numa
função que não lhe traz nenhuma satisfação tende a produzir cada vez menos.
Outra razão que leva ao
presenteísmo é a falta de comprometimento do colaborador, geralmente resultado
da perda de identificação com a empresa, da falta de regras claras para
avaliação do desempenho e, também, da ausência de uma liderança inspiradora.
“Não podemos esquecer que comprometimento é fator fundamental para se alcançar
os objetivos do grupo ou da empresa. Por isso, o líder deve funcionar como o
termômetro do ambiente corporativo, motivador de mudanças e como aquele que
gerencia o trânsito entre as atividades do presente e do futuro, e torna o
cotidiano mais harmonioso.
O líder deve ser como um
pára-choque de automóvel. Afinal, é o ambiente que cria equipes de alta
performance, não o trabalho, e as pessoas seguem os líderes.. Mas não se pode
esquecer que o líder deve dar o exemplo. Se ele for “presenteísta”, toda a
equipe terá essa propensão – com resultados desastrosos para a companhia.

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